segunda-feira, 23 de abril de 2012

Depressão: Leve, Grave ou Moderada?

 Para entender a depressão
Durante anos tenho recolhido dados sobre a depressão, este mal que acomete tantas e tantas pessoas mundo afora e que só mais recentemente vem sendo percebido em sua plenitude: um transtorno de saúde que compromete a capacidade do ser humano de viver adequadamente não apenas em sociedade, mas de conviver consigo mesmo.
Resultado de muitas e difusas causas, a depressão é e provavelmente permanecerá por um bom tempo um mistério quanto às suas origens e quanto às possibilidades de tratamentos eficientes.
Daí a necessidade de ampliar cada vez mais o universo de informações a respeito.
Nesse sentido, tempos atrás conversei longamente com o psiquiatra Jair Mari, amigo e titular da Universidade Federal de São Paulo/Escola Paulista de Medicina, que se dedica ao tema como clínico e acadêmico.
Eis abaixo o resultado dessa conversa, aqui reproduzida numa tentativa de ampliar ainda mais o entendimento desse transtorno que dificulta, direta ou indiretamente, a vida de tantas pessoas.



Eu gostaria que você falasse um pouco sobre os tipos de depressão e suas classificações.

A expressão "depressão maior" veio da classificação da APA - Associação Psiquiátrica Americana. Então é lógico que esse nome cause uma certa confusão: o que é a depressão maior e o que é a depressão menor? O mais correto é falar em depressão, em estados depressivos. Então esqueça essa história de maior ou menor, que isso é uma classificação da APA, "major depressive", que é para caracterizar um estado clínico da depressão, quer dizer, o cara não tem só uma tristeza, ele tem um problema, um problema importante. Quando esse problema se torna importante? Quando há uma mudança qualitativa. Então, não é uma tristeza porque meu time perdeu, por exemplo. Quando tem uma mudança que muito provavelmente é uma mudança biológica também, o indivíduo sente que algo mudou na vida dele. Ele começa a perceber que há três, quatro semanas tem crises de choro, muita angústia, perdeu o apetite, ou aumentou o apetite, que ele perdeu o sono ou aumentou o sono, e a mente dele é invadida por idéias ou de inferioridade, ou de culpa, chegando até o suicídio, até a idéia de suicídio. A depressão, independente do que a dispara, tem características biológicas importantes. O indivíduo passa a sentir que ele não é mais o mesmo.


Como a gente pode entender se a depressão é leve, moderada ou grave?

Eu vou te dar um exemplo de uma depressão muito grave para você entender a graduação. A maioria dos casos de depressão a gente chama de leve, que é sobre o que nós falamos há pouco, os sintomas que citei. Quando a coisa começa a complicar? Há alguns casos em que o indivíduo tem idéias delirantes, que são juízos falsos. Existe uma síndrome, que a gente chama síndrome de Cotard, durante a qual o indivíduo passa a se sentir tão mal que ele acredita que não tem o esôfago. Claro que é um falso juízo: se ele não tem o esôfago, ele não pode se alimentar, entendeu? E isso é gravíssimo, porque nesses casos a depressão não se trata somente com remédio, esses são casos em que, por exemplo, poderiam se beneficiar de um tratamento de eletrochoque. Outro exemplo: o indivíduo começa a achar que está com Aids, que foi contaminado. Então ele tem delírios que invadem a mente, a vida dele, ele passa a evitar usar coisas em comum, que os outros podem estar usando, ele começa a ter uma preocupação com contaminação, então passa a ter idéias paranóides e hipocondríacas.


Você exemplificou bem o que é o episódio grave, não é? Agora, o que você diria que é o moderado?

O moderado é aquele em que, além dos sintomas do caso leve, você tem uma idéia de suicídio, em que a circunstância do indivíduo é muito negativa.
Do ponto de vista clínico, o que acontece? Em geral, um bom clínico identifica um caso leve de depressão, trata com um antidepressivo e aconselhamento. Quer dizer, o clínico geral é treinado a identificar a circunstância em que a depressão ocorre. Na faculdade de medicina nós ensinamos o clínico a identificar os casos de depressão e a avaliar junto com o paciente a circunstância em que ela ocorre. Como por exemplo os conflitos conjugais, a história conjugal, a história ocupacional.
Em geral, o ponto de conflito, os principais conflitos, as principais dificuldades vão ocorrer na vida afetiva, na vida familiar, os filhos, por exemplo, o filho com dependência de droga ou que pode estar com problema grave com a justiça, o trabalho, as frustrações ocupacionais. Então, o clínico é treinado para contextualizar a depressão, para verificar em que momento ela surgiu na vida daquele indivíduo. Conversando com a pessoa, aconselhando, fazendo ela compreender porque que acabou ficando com depressão. As perdas são muito importantes, não é?


Sim, mas até aí você está falando só de fatores psicológicos. E os fatores clínicos, onde é que entram?

Muito provavelmente você tem uma interação. Essa é minha posição, da qual até podem discordar. Eu não acho que existe uma distinção clara entre o que é reativo (depressão reativa é o nome dado para os estados depressivos disparados por fatores psicológicos bem localizados) e a depressão biológica. Por exemplo, o indivíduo acorda de manhã e começa a ruminar loucamente sobre culpa, doença, inferioridade, perdas...
A outra característica importante da depressão em estado grave tem a ver com agitação psicomotora, quer dizer, a depressão pode levar o indivíduo a uma inibição global. Ele tem uma fadiga tão grande que não consegue fazer as coisas. Por isso que a depressão está associada também à obesidade. Vários casos de obesidade têm subjacente um estado depressivo, porque ela vai pegar essa parte mais de inibição do indivíduo, que fica todo lentificado. Por quê? Porque ele sente uma fadiga decorrente da depressão e todo seu metabolismo é alterado. Além disso, você também vai ter alguns casos de agitação psicomotora: o indivíduo não pára na cadeira no consultório. Esse é um caso grave de depressão. Os casos de depressão associada à agitação psicomotora teriam uma característica biológica mais forte, um componente hereditário mais forte. Muito provavelmente o que acontece é que a depressão é uma doença multicausal, de vários fatores interagindo para que ela exista.


E a questão da hereditariedade?

Você tem dois grupos. Um, famílias claramente com depressão, nas quais a depressão é marcante. São casos que têm uma herdabilidade muito forte. Dois, não há casos familiares, então a herdabilidade vai ser fraca. Naqueles em que a hereditariedade é fraca, a situação psicológica e o contexto social serão muito mais fortes. Nos casos da herdabilidade mais forte, qualquer evento negativo pode disparar a depressão. Então, é um equilíbrio de forças..


Esse terreno seria o dos neurotransmissores?

Justo. Quer dizer, independente do que dispara a depressão, você terá uma disfunção neuroquímica, muito provavelmente uma disfunção do sistema serotonérgico.


Mas não são apenas as serotoninas, certo?

Aí que está, muito provavelmente todos esses sistemas estão integrados. Há ainda o sistema dopaminérgico, da dopamina, que lida com a alegria e o prazer, e o noradrenérgico. Esses são os mais importantes.


E a noradrenalina é o quê?

A noradrenalina é o neurotransmissor da ansiedade, quando você libera noradrenalina você fica mais ansioso, mais alerta. Fora esses três grupos de neurotransmissores diretamente ligados à depressão, você tem mais 20. Você tem os alfadrenérgicos, os estamínicos, os serotonérgicos são divididos em três ou quatro, os dopaminérgicos são divididos em cinco sistemas. Então na verdade, nós estamos começando a compreender a neurofisiologia da depressão.


Acho que é importante deixar claro então que há muitos fatores envolvidos....

Agora, porque que os neurotransmissores são diferentes em cada pessoa? Porque a maquininha que regula os neurotransmissores, as enzimas e o funcionamento cerebral, ela vem codificada no sistema genético. Se você tem um evento muito forte, uma reação emocional muito forte, você desregula esse sistema. O indivíduo é a biologia dele, é o que ele traz nessa maquininha codificada, o jeito que ele foi organizado. Aí ele vai ter o crescimento psicológico dele, toda a vida psicológica, a formação e a história individual. E também os eventos estressantes. Nós já sabemos que quem perdeu a mãe antes dos 10 anos vai ter uma vulnerabilidade muito maior de desenvolver depressão lá na frente.
Então, a vida pessoal vai ter influência, vai ter influência o contexto social e cultural que esse indivíduo vai se desenvolver em relação ao posicionamento afetivo e profissional dele. As expectativas vão ser diferentes nos diferentes países. Em uma sociedade capitalista vem aquela história do "be happy", exige-se do indivíduo o máximo, que seja campeão. Quando você não é, então vai ficar mais vulnerável a ter uma autoavaliação pior do que você tem. Essa é a história da depressão.


Mas tudo isso ocorre dentro de um desequilíbrio químico...

Um computador funcionando com vários sistemas sinérgicos. Tem que haver um sinergismo para o cérebro funcionar bem. Então, essas situações podem disparar um desequilíbrio desse sistema. Quando ele se desequilibra, dificilmente vai se reordenar automaticamente.


Daí a necessidade de intervir quimicamente?

Justo. Ainda que em algumas situações pode-se pressupor que uma intervenção psicológica isolada tenha condição de reparar o sistema também.


Você está na contramão de correntes psiquiátricas que acham que a psicoterapia é apenas um coadjuvante muito relativo...

O que nós temos que ver não é a crença de cada um, é o que se tem de pesquisa. Há dois tipos de terapia que estão sendo levantadas como eficazes, mesmo sendo não tão eficazes quanto o remédio. É a psicoterapia interpessoal, IPT, e a que se chama de terapia cognitiva, reestruturação cognitiva. Nesses dois tipos de terapia, se você pegar um indivíduo deprimido e comparar com placebo, eles funcionam. Mas não há evidência de que a psicanálise teria o mesmo efeito no indivíduo, por enquanto não tem evidência científica.


Você acha que é importante a combinação das duas coisas, terapia e tratamento químico?

A combinação das duas coisas. Ou você fazer primeiro o mais simples, que é dar um suporte emocional para o indivíduo, um suporte afetivo, e contextualizar o início da depressão, compreender o que disparou, buscar uma resolução e, se esse indivíduo fica bem, ele não vai precisar de nada mais. E há indivíduos em que a medicação somente não vai ser suficiente, então esses indivíduos vão se beneficiar de uma psicoterapia.


Agora, há também a corrente dos psicólogos que afirmam que há exageros em relação aos medicamentos, que é preciso haver uma compreensão maior do indivíduo, de seu ego. Como agir diante de uma pessoa que está sofrendo?

Eu acho que essas pessoas têm que mostrar isso com dados, com pesquisa. Todos nós devemos estar abertos a diferentes hipóteses, o que tem que acabar é com as crenças no meio científico, no nosso meio. Eu não teria problema nenhum em mudar minha prática, desde que eu comprove com o tempo que os resultados seriam melhores utilizando uma outra técnica. Quer dizer, eu não sou um defensor a priori da medicação ou de um tipo particular de psicoterapia, o que nós precisamos é ter profissionais que tenham preparo para poder avaliar se uma intervenção tem de fato eficácia ou não.
O que acontece na psicanálise e em alguns grupos de terapia é que eles são pequenas corporações que defendem um espaço ideológico.


De mercado?

Um espaço de mercado também. Mas, se essas intervenções comprovarem que elas têm eficácia, e nós temos hoje desenhos de pesquisa que poderiam ser aplicados para realmente pesquisar essas alternativas com seriedade, eu não teria problema nenhum, quer dizer, não existe esse preconceito da nossa parte.
Eu queria voltar a ponto da depressão grave e falar também de distimia e do transtorno bipolar. Em geral, o indivíduo vai para o médico, toma o antidepressivo, de 90% a 95% dos casos ele se resolve ali, no clínico geral. Os casos que vêm para o especialista, em geral, cuidando um pouquinho melhor da aplicação do antidepressivo, a maioria tem resposta positiva.
Alguns casos complicam, que é o que a gente chama de depressão refratária, nas quais você não consegue sucesso no tratamento imediato. Então, esses casos poderiam ser considerados mais graves, porque eles são refratários ao tratamento, são pessoas que não se dão com a medicação, pessoas que sofrem muitos efeitos adversos do remédio e pessoas que ficam em um estado em que você não consegue de fato tratar. Agora, depressão grave mesmo é quando você tiver impulsos de suicídio muito fortes e os distúrbios de senso percepção, principalmente os delírios, os julgamentos falsos.
A distimia é o que se chamava antigamente do neurótico depressivo, um indivíduo que tem um humor abaixo do normal. Ele é melancólico e triste, ele tem idéias de inferioridade, culpa, hipocondria mais acentuada, fadiga, só que ele não preenche os critérios de diagnóstico da depressão. É como se ele tivesse uma personalidade depressiva, com um decréscimo de humor persistente ao longo de toda a vida.


Isso não chega a abater a qualidade de vida dele?

Abate muito! Esses indivíduos têm a qualidade de vida extremamente prejudicada, são pessoas que podem ser muito inteligentes, mas não conseguem se realizar profissionalmente. Agora, eles é que têm o maior benefício dos antidepressivos. Esse indivíduo que era todo tímido, recatado e com baixo funcionamento, tem uma melhora muito importante com o medicamento.
Já o transtorno afetivo bipolar é o indivíduo que, além da depressão, tem picos de euforia. Além de ficar deprimido, vai ter picos de não dormir, falar para caramba, se tornar irritado, ter idéias de grandiosidade, ele vai para o outro lado da moeda..


Tem aquela coisa de gastar muito dinheiro...

Ele vai fazer duas besteiras, principalmente: gastar mais do que pode e transar mais do que deve.


Fazer sexo?

Isso, tem uma exacerbação da libido e uma redução dos limites, ele não vê obstáculos, ele pode tudo, o cara vê uma coisa e acha que pode e diz: "Mas se eu vender não sei o que lá e meu tio me emprestar dinheiro..." Só que ele não vende e o tio não dá o dinheiro e ele em geral fica sem cartão de crédito e talão de cheques.


E essa coisa sexual, como é: ele acha que pode se relacionar com qualquer pessoa?

Isso mesmo. Então esse é o indivíduo que se coloca muito vulnerável hoje a ter uma Aids, a ser um HIV positivo, porque na euforia ele perde a noção de obstáculos, se acha superpoderoso, transa com Deus e todo mundo e acaba tendo problemas.


Tem uma coisa que eu achava legal abordar, que é a maneira como essas pessoas se inserem na sociedade, a questão cultural, o tratamento que a sociedade dá às pessoas que têm algum tipo de transtorno, em particular a depressão. Como você vê isso no Brasil, em contraponto ao país da alegria, do Carnaval, do descompromisso?

Eu percebo que principalmente o homem tem uma dificuldade muito grande de aceitar que tem depressão. É supercomum nos ambulatórios, mesmo atendendo gente simples, o indivíduo ter passado vários anos sem saber o que tinha e aí, quando toma remédio e melhora, quando tem acesso ao tratamento recebe um benefício fantástico


Por que essa relação com o medicamento?

Eu acho que eles têm medo do estigma, porque quem toma psicotrópico é visto como doido. Remédio de tarja preta ou ir ao psiquiatra é um horror.


Você sente isso no seu dia-a-dia?

Por exemplo, há executivos que você trata e que jamais apareceriam para dizer que foram tratados, que tiveram o problema, foram tratados e hoje estão muito bem. Comparando por exemplo com a urologia, que é a comparação mais absurda: por coincidência, a minha posse como professor titular [da Universidade Federal de São Paulo] ocorreu junto com a de um professor de urologia. Todos os figurões que o urologista tratou estavam lá. Os figurões que eu tratei, que voltaram e que estão na ativa, ficaram muito contentes de saber que eu me tornei professor titular, mas jamais apareceriam publicamente... Então, as pessoas que foram operadas de próstata, de câncer de próstata, que foram invadidas pelo urologista não têm vergonha, e contribuem com a universidade e tudo. Na psiquiatria, nós percebemos que as pessoas se escondem, mesmo quando elas terminaram o tratamento, quando elas voltaram a ter um desempenho profissional adequado e tudo.


Onde a questão do estigma pega mais, no medicamento?

Na medicação tem o seguinte problema: "Eu não quero tomar, porque o que vão falar de me verem tomando esse remédio?"
Existe o risco de a pessoa se achar frágil, fraca, porque há muito forte a noção de que o indivíduo deveria superar isso tudo sozinho, é muito forte essa noção dentro da nossa sociedade, principalmente em relação aos homens. Homem que é homem não pode ficar deprimido. Então o homem, o que vai acontecer? Ele vai ter problemas com dependência do álcool, dependência de drogas, conseqüências da depressão. O homem demora a chegar ao médico. Acho que o preconceito existe também entre as mulheres, mas as elas têm uma maior facilidade.


Você acha que a nossa cultura propicia esse tipo de comportamento?

É necessário estar feliz, essa é uma coisa muito forte no Brasil.
O que existe aqui é que nós já somos uma sociedade feliz, digamos assim, essa estória de que Deus é brasileiro, não tem terremoto, não tem furacão, aquela idéia de que somos abençoados. Então, não há motivo para ficar triste, né?
Enquanto que na sociedade americana, por exemplo, a felicidade é vendida como uma "commodity" [mercadoria], quer dizer, como um produto indispensável para o ser humano. Existe um estímulo muito maior para que você compre a idéia de ser feliz, e eu acho que no Brasil, ao contrário, nós já somos abençoados, então não tem porque estar triste. A coisa viria não pelo mesmo estímulo que nos Estados Unidos, mas por uma benção que nos foi dada.


Eu gostaria que você falasse um pouco da relação do deprimido com seus familiares.

O indivíduo quando está deprimido não consegue desfrutar de nada. Mesmo as coisas de que mais gostava, como futebol ou a bisteca do restaurante x ou filé do Moraes [tradicional restaurante de São Paulo]. Mesmo aquelas coisas com que tem uma ligação mais forte ele deixa de desfrutar. Para a família, não dá para entender, porque o cara não tem marcas de doença, muitas vezes ele não está chorando, ou se está chorando, não deveria estar chorando. As pessoas não compreendem que o indivíduo parou de gostar das coisas. Então ocorre aquela história de "você vai, você tem que ir, nós vamos te levar". Ao perceber que ele não está em condições de desfrutar daquele momento, a família acaba pressionando demais o indivíduo sem compreender que ele não está bem. Aí tem de haver um papel educacional e psicopedagógico importante com os familiares.


Por intermédio do médico?

Do médico e da própria sociedade. Informação, jornais, livros, educação para perceber as pessoas. Porque, quem nunca sentiu, se não tiver uma idéia do que se trata, jamais vai compreender o que está se passando.
Veja, a família está lá, levando a vida dela, de repente aparece um mala, chato, porque o deprimido é chato. O cara vira um pentelho, porque ele não gosta mais de nada, ele acaba ficando uma pessoa dependente, ele não trabalha, então as pessoas podem achar que ele está fazendo aquilo porque quer, elas não percebem que a pessoa perdeu o controle de si mesma, acham que é voluntário, que é deliberado. Aí que vem o prejuízo de se estimular o indivíduo em situações que ele não está podendo cumprir. Há um descompasso entre o estímulo e como o indivíduo deve reagir. Por isso deve haver todo um trabalho com a família para compreender o que está havendo com o indivíduo e de respeitá-lo nesse momento. E quando ele começa a melhorar é o momento de iniciar uma negociação. "Você gostaria de fazer isso? Será que não seria legal? Vem com a gente...". Porque muitas vezes o indivíduo deprimido tem um medo muito grande do primeiro impulso, de ir a um lugar e tal. Depois, ele acaba indo, percebe que melhorou, é importante ele perceber isso. Vai portanto haver um momento em que a negociação é importante e aí é hora do médico alertar a família que vale a pena insistir. Mas tem horas em que não vale a pena insistir, na verdade você está aumentando a angústia do indivíduo, porque ele gostaria de estar fazendo e não está podendo fazer. Na verdade, ele tem vontade de se matar porque não pode fazer e não vê mais motivo para viver.


O que você acha de estar se falando novamente na TEC, no tratamento por eletrochoque?

O eletrochoque, tem comprovação disso, na verdade é o único tipo de tratamento que pode salvar a pessoa em alguns casos graves. O eletrochoque se tornou um problema porque está vinculado à tortura, ao regime militar e a uma psiquiatria desumana. Que houve abusos e que pode haver abusos na psiquiatria, isso é verdade, como em todas as áreas da medicina. Por isso é fundamental que as pessoas realmente possam ter acesso à informação, para que elas possam se defender. Do ponto de vista terapêutico, tem pessoas que se não forem tratadas com eletrochoque vão perder a vida. Então, o eletrochoque em determinados casos é o único meio de recuperar a vida dessas pessoas. Mas há um estigma muito grande, um preconceito muito grande.

Luiz Caversan, 56 anos, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

O Diagnóstico Diferencial entre Experiências Espirituais e Transtornos mentais de Conteúdo Religioso

inteligência espiritual 


Resumo


  
Introdução:
Experiências espirituais podem ser confundidas com sintomas psicóticos e dissociativos, constituindo-se muitas vezes em um desafio para o diagnóstico diferencial.

Objetivo:
Identificar critérios que permitam a elaboração de um diagnóstico diferencial entre experiências espirituais e transtornos psicóticos e dissociativos.


Métodos:
Foi feita uma ampla revisão na literatura sobre o tema, na qual foram examinados 135 artigos identificados em pesquisa no PubMed.


Resultados:
Foram identificados nove critérios de maior concordância entre os pesquisadores que poderiam indicar uma adequada diferenciação entre experiências espirituais e transtornos psicóticos e dissociativos. São eles, em relação à experiência vivida: ausência de sofrimento psicológico, ausência de prejuízos sociais e ocupacionais, duração curta da experiência, atitude crítica (ter dúvidas sobre a realidade objetiva da vivência), compatibilidade com o grupo cultural ou religioso do paciente, ausência de comorbidades, controle sobre a experiência, crescimento pessoal ao longo do tempo e uma atitude de ajuda aos outros. A presença dessas condições sugere uma experiência espiritual não patológica, mas, por outro lado, há carência de estudos bem controlados testando esses critérios.


Conclusões:
Esses critérios propostos na literatura, embora alcançando um consenso expressivo entre diferentes pesquisadores, ainda precisam ser testados empiricamente e direções metodológicas para as futuras pesquisas sobre esse tema são sugeridas.



Introdução:
Historicamente, desde meados do século XIX, a Psiquiatria tem desprezado e mesmo considerado patológicas as manifestações religiosas e espirituais. Freud considerou a religião como uma neurose obsessiva. A experiência mística também foi vista como um episódio psicótico e como uma psicose borderline. O Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders III (DSM-III) faz 12 referências à religião, todas elas associadas à psicopatologia.
Outros autores, entretanto, apresentaram diferentes opiniões. Jung viu na experiência mística a manifestação de uma experiência psicologicamente saudável. Maslow considerou as “experiências culminantes” a expressão máxima da saúde e do bem-estar psicológico. Hood e Caird constataram que indivíduos que relataram ter tido experiências místicas pontuam mais em escalas de bem-estar psicológico e menos em escalas de psicopatologia do que os controles.
Alguns autores sugeriram a importância de se buscarem critérios diferenciadores entre o que seriam experiências espirituais não patológicas e o que seriam transtornos mentais de conteúdo religioso. As contribuições desses autores para essa importante questão foram coletadas na literatura, e procurou-se apresentar e discutir alguns critérios comuns que tenham perpassado pela maioria dessas investigações. Ao final, concluiu-se que, embora todos esses critérios apresentem certa coerência, ainda não foi feita até o presente nenhuma investigação extensiva que testasse esses critérios, e são colocadas algumas diretrizes metodológicas que alguns autores sugeriram para essa investigação.


Métodos
A base de dados buscada foi a PubMed e os descritores investigados foram dissociation, trance, possession e hallucination. Foram priorizados os artigos que apresentavam pesquisas extensivas e critérios diferenciadores entre o que poderia ser considerado uma experiência saudável e o que poderia ser considerado uma expe­riência patológica.

Resultados
Vários autores têm abordado a relação entre as experiências espirituais e manifestações patológicas da mente. Místicos, videntes e médiuns têm desafiado a compreensão dos profissionais de saúde mental e tornado necessária uma adequada diferenciação entre o que seria uma experiência espiritual saudável e o que seria um transtorno psicótico ou dissociativo com conteúdo religioso.
Já no início do século XX, William James, investigando as experiências de êxtase místico, verificou que essas experiências, quando saudáveis, tinham duração breve e traziam efeitos benéficos para quem as vivenciava.
Buckley examinou relatos autobiográficos de indivíduos que viveram experiências místicas e de indivíduos que viveram experiências esquizofrênicas. Ele identificou aspectos comuns e aspectos diferenciadores em ambas as experiências. Encontrou os seguintes aspectos comuns nas duas experiências: elevação do nível de consciência, sentir-se transportado além do próprio self, perda das fronteiras entre o self e os objetos, dilatação do sentido do tempo, sentir-se envolvido em luz e um forte sentido de comunhão com o divino. É característica do êxtase místico a preservação da estrutura do pensamento e da fala, o predomínio das alucinações visuais sobre as auditivas, um grande aguçamento dos sentidos, estabilidade das emoções e a duração da experiência limitada no tempo. São características de um surto psicótico a quebra da estrutura do pensamento e da fala, o predomínio das alucinações auditivas sobre as visuais, o embotamento dos sentidos, o esvaziamento das emoções entremeadas por rompantes agressivos ou sexuais e a duração da experiência ser extensiva no tempo.
Lenz enfatizou o grau de convicção sobre a expe­riência vivida como critério de saúde mental: na vivência saudável existe a dúvida sobre a realidade objetiva da experiência e no transtorno mental existe certeza sobre essa realidade.
Lukoff e posteriormente Greyson1 investigaram a Experiência de Quase-morte (EQM), procurando diferenciá-las de outras experiências psicopatológicas. Nesta experiência, um indivíduo chega a se ver fora do corpo, encontra seres espirituais e depois retorna ao seu corpo. Assim, Lukoff percebeu na EQM nítidos e antecedentes estressores, um bom funcionamento psicológico prévio, uma atitude exploratória em relação à experiência e a ausência de déficits interpessoais. Já Greyson, confirmando as características saudáveis da EQM, tais como já tinham sido apresentadas por Lukoff, diferenciou a EQM do transtorno do estresse pós-traumático, vendo neste último a presença de lembranças intrusivas, a diminuição geral do interesse em diversas atividades, o estranhamento dos outros, a restrição dos afetos e um senso de futuro abreviado que não se faziam presentes na EQM.
Oxman também viram aspectos comuns e diferenciados nos relatos de místicos e esquizofrênicos. Eles escolheram relatos disponíveis publicamente, que o texto tivesse sido escrito logo depois da experiência, que estivesse escrito em inglês e tivesse uma extensão suficiente. De comum entre ambas as experiências, viram a abundância das fantasias e, como fatores diferenciadores, viram que os místicos tratam de encontros com Deus e de sentimentos religiosos, enquanto esquizofrênicos tratam de doenças e de fortes sentimentos de maldade.
Sims propõe que uma experiência espiritual saudável é compatível com uma tradição religiosa; o indivíduo compreende a incredulidade dos outros e tem reservas em discutir sua experiência com outros que acredita que não a compreenderão, é descrita com convicção e, por fim, o indivíduo sente necessidade de efetuar alguma mudança no seu comportamento depois da experiência vivida. Já a experiência patológica se revela em resultados que são compatíveis com uma história de transtorno mental e surge sempre associada a outros transtornos psiquiátricos.
Grof e Grof16, com base em suas experiências clínicas, criaram o conceito de “emergências espirituais”. Esses autores apresentaram essas experiências com um duplo significado, possível pelos diferentes significados de Spiritual Emergence e Spiritual Emergency. Spiritual Emergence refere-se à eclosão de uma experiência espiritual que surge sem acarretar perturbação das funções psicológicas. Já a Spiritual Emergency é a ocorrência descontrolada da experiência espiritual com problemas dos funcionamentos psicológico, social e ocupacional.
Grof e Grof fizeram uma ampla e detalhada diferenciação entre as manifestações de uma experiência espiritual e um transtorno mental. No primeiro caso, as experiências são suaves, não geram sensações desagradáveis, não conflitivas, são graduais, preservam a diferenciação entre o que é interno e o que é externo, geram uma atitude de expectativa positiva, favorecem uma renúncia ao controle, estimulam a aceitação de mudanças, integram-se à consciência diária, permitem uma compreensão detalhada, não geram necessidade de discutir frequentemente e possibilitam uma lenta mudança de compreensão de si mesmo e do mundo. Já as experiências ligadas a um transtorno mental são intensas, geram sensações desagradáveis, como tremores e calafrios, são conflitivas, são abruptas, não diferenciam o que é interno do que é externo, geram uma atitude ambivalente, promovem a necessidade do controle, instigam resistência às mudanças, trazem perturbações na consciência diária, sua compreensão é confusa, geram a necessidade de discutir a experiência e provocam modificações abruptas na consciência de si e do mundo.
Greenberg e Witztum investigaram uma população de judeus ortodoxos, procurando diferenciar o que seria um sistema de crenças e práticas religiosas rigorosos, mas psicologicamente saudáveis, de um transtorno obsessivo-compulsivo com fundo religioso. Assim, as experiências pessoais saudáveis são compatíveis com as crenças aceitas pelo grupo religioso, seus detalhes não excedem as crenças aceitas, são moderadas, geram excitação e as habilidades sociais e os hábitos de higiene estão preservados. Já nas crenças obsessivas, as experiências são muito pessoais e divergem das crenças do grupo, seus detalhes excedem as crenças aceitas, são intensas, geram terror e as habilidades sociais e os hábitos de higiene estão comprometidos. Já os comportamentos saudáveis não excedem as prescrições, são gerais, não estão presentes condutas de limpeza e de verificação e não ocorre a desconsideração de outras práticas. As condutas compulsivas, diferentemente, excedem as prescrições, são muito específicas, estão associadas a rotinas de limpeza e de verificação e trazem desconsiderações para com outras práticas religiosas propostas pelo grupo religioso.
Lukoff propuseram para o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, na sua versão de 199419, uma nova categoria de problemas psicológicos, denominada por eles “problemas religiosos e espirituais”. Problemas religiosos são experiências perturbadoras, que envolvem crenças e práticas de uma igreja ou instituição religiosa, que ocorrem, por exemplo, em um momento de crise de fé ou na migração para uma nova orientação religiosa. Problemas espirituais são experiências perturbadoras, que envolvem o relacionamento do indivíduo com um ser ou força transcendente, que ocorrem, por exemplo, nas expe­riências místicas e nas EQM. Em uma experiência mística ocorrem uma vivência de união com um ser divino, uma grande euforia e a perda da noção de tempo e espaço, que podem ser confundidas com episódios psicóticos agudos. Em uma EQM, uma pessoa se vê projetada fora do seu corpo, encontra seres espirituais e alcança uma nova compreensão da vida, experiência esta que pode ser confundida com um transtorno dissociativo de despersonalização.
Esse foi um importante avanço na Psiquiatria, pois se colocou a possibilidade de muitas experiências espirituais e religiosas não serem patológicas, apesar de se assemelharem a transtornos mentais. A criação dessa categoria teve como objetivos incrementar especificidade no diagnóstico dessas experiências, reduzir efeitos danosos de um diagnóstico equivocado, estimular pesquisas que gerem tratamentos mais adequados para esses problemas e estimular os centros de formação psiquiátricos a acrescentarem a compreensão e o tratamento desses problemas aos seus programas de treinamento.
Jackson e Fulford empreenderam um estudo comparando cinco indivíduos que tinham vivenciado experiências espirituais com cinco indivíduos que estavam se recobrando de surtos psicóticos, mas que interpretavam suas experiências em termos religiosos. Eles propuseram que as experiências espirituais e psicóticas não podem ser diferenciadas apenas pelos sintomas que são muito semelhantes em um caso e outro, mas seria mais importante investigar o sistema de valores e crenças com os quais o indivíduo avalia e compreende as suas experiências.
Jackson e Fulford conseguiram, assim, levantar sintomas diferenciadores entre as duas experiências. Assim, a experiência espiritual geralmente é: voltada para os outros, é curta, vivida intelectualmente, existe dúvida sobre ela, preserva o insight sobre a origem interna da experiência, é controlada, não leva a perder o contato com a realidade, é emocionalmente neutra ou positiva (traz satisfação), traz consciência da não compreensão dos outros, não ocorrem falhas nas ações intencionais, não leva à deterioração da vida, seu conteúdo é aceitável pelo grupo cultural de referência do indivíduo e gera crescimento pessoal. Já a experiência psicótica geralmente é voltada para a própria pessoa, é longa, é vivida corporalmente, existe a certeza sobre ela, falta insight sobre sua origem interna, leva a pessoa a ser submergida nela, leva a perder o contato com a realidade, é emocionalmente negativa (traz sofrimento), não existe consciência da não compreensão dos outros, gera falhas em ações intencionais, leva à deterioração da vida, seu conteúdo é estranho para o grupo cultural de referência do indivíduo e ocorre um prejuízo geral na vida pessoal.
Koenig, procedendo a uma revisão da literatura sobre critérios diferenciadores entre experiência espiritual e transtornos mentais, propôs que as primeiras não comprometem os desempenhos social e ocupacional, preservam a compreensão do caráter incomum da experiência, não geram rupturas na relação com um grupo sociocultural de referência, não estão associadas a outras patologias mentais e geram crescimento psicológico com o tempo.
A questão da saúde mental e da psicopatologia se torna crítica diante dos fenômenos alucinatórios, que habitualmente são associados à esquizofrenia ou a outros quadros psicóticos. Segundo Esquirol, a alucinação é uma percepção sem objeto. A definição do DSM-IV não se afastou muito desse significado original, ao definir alucinação como uma percepção sensorial que apresenta um forte sentido de percepção real, mas ocorre sem a estimulação externa dos órgãos de sentido pertinentes.
Pesquisas populacionais há mais de um século vêm indicando que os fenômenos alucinatórios, mais do que uma categoria de experiências restritas aos psicóticos esquizofrênicos, ocorrem de uma forma bastante disseminada na população. No final do século XIX, Sidgwick, vinculado à Sociedade de Pesquisas Psíquicas, juntamente com um grande número de colaboradores, entrevistou 7.717 homens e 7.599 mulheres britânicos. Ele constatou que 7,8% dos homens e 12% das mulheres relataram ter tido pelo menos um episódio vívido de alucinação. West, conduzindo uma pesquisa similar, por meio da distribuição de questionários com 1.519 sujeitos, 50 anos depois, na mesma região anteriormente investigada por Sidgewick, confirmou a ocorrência de alucinações em 14% dos indivíduos investigados.
Tien constatou que 10% dos homens e 15% das mulheres em uma amostra de 18.572 indivíduos, obtida em uma ampla pesquisa de sintomas psiquiátricos em uma população geral (Epidemiological Catchment Area Program), apresentavam alucinações ao longo de toda a vida sem manifestarem outros sintomas patológicos. Ohayon sondou 13.057 indivíduos da Grã-Bretanha, da Alemanha e da Itália por telefone e constatou que 38,7% destes relataram ter tido alucinações e, entre estes, 5,1% apresentavam esse sintoma uma ou mais vezes por semana.
Além de as alucinações acontecerem extensivamente, Johns e Van e Lincoln propõem que elas acontecem em um continuum no qual em um extremo estão os indivíduos saudáveis e, no outro extremo, estão os esquizofrênicos. Baseados em grandes estudos populacionais, eles propõem que, tal como a esquizofrenia não é um construto categorial, mas sim dimensional, ou seja, mais do que existir uma categoria de esquizofrênicos puros, diferentes dos normais, a esquizofrenia se estende em maior ou menor grau a toda a população. O diagnóstico patológico dependerá de uma maior frequência e intensidade da experiência alucinatória, da coexistência de outros sintomas e de prejuízos na capacidade de adaptação em geral.
Strauss propôs serem indicadores de patologia a convicção sobre a realidade objetiva da vivência alucinatória, a ausência de apoio cultural para a experiência, a grande quantidade de tempo envolvido com a experiência e a implausibilidade da vivência em relação à realidade socialmente compartilhada.
Slade, investigando dois pequenos grupos de psicóticos (alucinadores e não alucinadores) e Richardson e Divvo, examinando dois grupos de alcoólatras (alucinadores e não alucinadores), utilizando testes psicológicos, verificaram que as alucinações são geralmente disparadas por estresse pessoal, em pessoas muito focadas em si mesmas, que são muito imaginativas e têm um pobre teste de realidade. Honig et al.34 compararam grupos de não pacientes alucinadores, pacientes com transtorno dissociativo e pacientes esquizofrênicos e concluíram que as alucinações entre normais são tranquilas, não geram alarme nem perturbação e existe controle sobre elas e as alucinações dos esquizofrênicos são precedidas por eventos traumáticas, geram perturbação e não existe controle sobre elas. Serper et al.29 compararam três grupos de pessoas, sendo 39 esquizofrênicos alucinadores, 49 esquizofrênicos não alucinadores e 363 universitários normais e assinalaram algumas características dos alucinadores esquizofrênicos: consideram que suas alucinações visuais e auditivas são percepções objetivas, têm vários impedimentos na vida, apresentam outras disfunções clínicas e têm percepções distorcidas.
Experiências dissociativas também estiveram associadas a transtornos mentais. O termo dissociação foi inicialmente criado por Pierre Janet, em 1880, para significar “desagregações psicológicas”. Segundo esse autor, a dissociação seria a perda da unidade do funcionamento da personalidade humana, na qual certas funções mentais atuariam de forma independente e fora de um controle consciente. A dissociação pode ocorrer naturalmente, como, por exemplo, quando uma pessoa se absorve tanto em assistir a um filme que fica totalmente alheia a tudo o mais que esteja acontecendo a si mesmo ou ao seu redor.
Na concepção original de Janet, a dissociação seria um construto categorial, ou seja, é um tipo ou categoria de experiência que só ocorreria em indivíduos mentalmente doentes, que teriam uma deficiência em integrar diferentes conteúdos psicológicos. Alguns contemporâneos de Janet, como Frederic Myers, Morton Prince e William James, apresentaram um ponto de vista diferente, pelo qual a dissociação é entendida como um construto dimensional, ou seja, é vivenciada em maior ou menor grau por todas as pessoas indo de um extremo saudável até o outro extremo patológico36.
É necessário termos uma compreensão da extensão em que a dissociação ocorre na população em geral. Ross et al.37 avaliaram uma amostra de 1.055 adultos não diagnosticados, extraída do total de 650.000 habitantes da cidade de Winnipeg, Canadá. Eles aplicaram nesta amostra o DES (Dissociative Experience Scale), um instrumento de autoinforme composto por 28 itens que mede experiências dissociativas, e constataram que 13% desses indivíduos apresentaram uma pontuação acima de 20, indicando a existência de um nível alto de vivências dissociativas nessa amostra.
Waller et al.38 e Martinez-Taboas propuseram que a dissociação não patológica envolve a capacidade de absorção e de envolvimento imaginativo e constitui uma experiência humana para a qual todos os indivíduos são propensos em maior ou menor grau. Tellegen e Atkinson definiram a absorção como um estado de total atenção, no qual o aparelho representacional parece estar totalmente dedicado a experienciar o objeto percebido. Wilson e Barber, Rhue e Lynn e Rauschenberger e Lynn identificaram alguns indivíduos, que denominaram de “fantasiadores”, como sendo muito propensos à fantasia, tendo tido na infância um maior envolvimento com jogos de fantasia do que com brincadeiras com outras crianças e sua capacidade de fantasiar representou um canal de escape para sua solidão e sua raiva.
Lewis-Fernandez afirma que a dissociação não patológica ocorre com o controle pleno por parte do indivíduo, dentro de um contexto cultural que a organiza, e é significativa para a própria pessoa e para os outros. Butler acrescenta que a dissociação saudável é útil em todo o processamento mental, facilita ações e atitudes automáticas, ajuda a escapar mentalmente de situações desagradáveis e a concentrar-se em atividades absorventes, não tem sua origem associada a traumas, ocorre em períodos curtos, é suave e não bloqueia o funcionamento da mente.
A propensão à fantasia, entretanto, por mais inocente que possa parecer, pode levar à dissociação patológica, quando um evento traumático faz o indivíduo buscar, na fantasia, a forma de escapar da realidade intolerável. A dissociação patológica, surgindo inicialmente como uma forma de lidar com a situação aversiva, pode se generalizar para as demais situações de vida, passando a trazer prejuízos na capacidade de adaptação do indivíduo45. É a interação entre a capacidade natural de absorção, com as experiências traumáticas, que resultará na dissociação patológica45.
A dissociação patológica expressa um definido mau funcionamento psicológico, gera sofrimento e incapacitação, é involuntária e é interpretada pelo grupo cultural de referência do próprio indivíduo como sendo uma doença que necessita de tratamento44. Dissociadores patológicos mesclam as formas não patológicas com as formas patológicas de dissociação. A dissociação patológica está ainda associada a experiências traumáticas do passado, é crônica, grave e debilitadora para os funcionamentos psicológico e social do indivíduo45.
Segundo Waller et al.38 e Martinez-Taboas39, a dissociação patológica se expressa por meio da amnésia, da despersonalização-desrealização, da confusão de identidade e da alteração de identidade.
A amnésia dissociativa compreende basicamente a perda de memória, sobretudo de eventos recentes e de informações pessoais importantes, que não pode ser atribuída a um esquecimento habitual, à fadiga ou a um sintoma de origem orgânica48.
A despersonalização refere-se às alterações afetivas e perceptuais em relação ao self, que levam o indivíduo a estranhar a si mesmo e ao seu próprio corpo. A desrealização refere-se às mesmas alterações em relação ao seu meio ambiente, que fazem o indivíduo se sentir desconfortável nesse ambiente48.
O transtorno de identidade dissociativa, antes chamado de transtorno de identidade múltipla, manifesta-se pela existência de duas ou mais personalidades dentro de um mesmo indivíduo, que se alternam dentro dele, com períodos de amnésia, eclipsando as personalidades que foram afastadas48.
A alteração de identidade é vista mais evidentemente no transtorno de transe dissociativo. Cardeña et al.48 definem transe como uma alteração temporária da consciência, da identidade ou do comportamento, com diminuição da percepção do ambiente e ocorrência de movimentos que estejam fora do controle da própria pessoa, sem substituição da própria consciência por outra. Os mesmos autores definem transe de possessão como sendo a mesma vivência, com a diferença que a alteração da consciência é atribuída a uma força ou entidade espiritual externa que se apossa da consciência daquele que vivencia a experiência.
Deve-se tomar cuidado para não considerar patológicas todas as formas de transe e possessão, pois Bourguignon, em uma investigação antropológica, constatou que, em 488 sociedades no mundo, 90% delas possuíam formas institucionalizadas de transe e, em 52% destas, esses estados são atribuídos à possessão por seres espirituais. Isso nos mostra que a extensão em que essa vivência acontece no mundo nos leva a tomar cuidado para não reduzi-la a um mero mau funcionamento psicológico de indivíduos mentalmente doentes.
Lewis propôs alguns critérios para diferenciar a possessão saudável da patológica. A possessão não patológica, denominada por ele como central, é episódica, ocorre em um tempo delimitado, é organizada e ocorre dentro de um contexto cultural que lhe confere significado. Já a possessão patológica, denominada por ele como periférica, tende a ser crônica, ocorre de forma não controlada, não é organizada e não compatível com o contexto cultural no qual o indivíduo esteja integrado.
Beng-Yeong propõe que estados de transe saudáveis sejam disparados por ações definidas, sejam curtos e gerem resultados benéficos para o indivíduo que os vivencia e serão patológicos se forem disparados por emoções estressantes, durarem muito e gerarem resultados maléficos para quem os vivencia.
Cardeña et al.52, utilizando os conceitos de Lewis, afirmam que a possessão central (não patológica) vem de uma predisposição provavelmente biológica, que foi modelada por fatores socioculturais organizados, que levaram a rituais controlados de possessão. É neste sentido que poderemos compreender os transes de possessão da mediunidade, que acontecem nas reli­giões mediúnicas, como no Espiritismo, na Umbanda e no Candomblé. Já a possessão periférica (patológica) também decorreria de uma predisposição biológica, mas que foi impactada por traumas físicos ou sexuais, gerando alterações de identidade difíceis de controlar e organizar. Os indivíduos passam a apresentar sofrimento psicológico e prejuízos significativos nos seus funcionamentos social e ocupacional.

Discussão

Será apresentado um resumo com os principais sintomas diferenciadores entre uma experiência espiritual e um transtorno mental propostos por esses autores. A ordem de colocação desses critérios deve-se a uma concordância decrescente dos autores em relação a eles, tal como apresentados neste estudo. Esses critérios não devem ser considerados isoladamente, mas sim em um conjunto. Faltam, entretanto, mais estudos que testem prospectivamente os critérios diferenciadores do que seria uma experiência espiritual e do que seria um transtorno dissociativo ou espiritual.


I – Ausência de sofrimento psicológico

O sofrimento está relacionado à doença. Deve-se lembrar, entretanto, que os estágios iniciais de uma expe­riência religiosa ou espiritual podem vir acompanhados de grande sofrimento pessoal que poderão ser superados à medida que o indivíduo avançar na compreensão e no controle da sua experiência. Greyson, estudando as EQM, afirma que os indivíduos, após essa experiência, sentem raiva e depressão, experimentam abalos em suas crenças religiosas, passam a duvidar de sua sanidade mental, sentem-se incompreendidos pelos familiares e profissionais de saúde e que 75% rompem casamentos, e suas carreiras profissionais podem ficar gravemente prejudicadas. Comentando quatro casos em seu artigo, ele afirma que o atendimento psicoterapêutico e psicofarmacológico adequado trouxe uma melhor compreensão da experiência vivida por eles, levando esses pacientes a retomarem e muitas vezes reestruturarem sua vida de forma mais significativa.


II – Ausência de prejuízos sociais e ocupacionais

A saúde psicológica implica um ego estruturado gerenciando adequadamente as relações sociais, familiares, afetivas e atividades ocupacionais. Lukoff et al.54, entretanto, comentam como indivíduos que tiveram uma experiência mística podem se sentir temporariamente desajustados em relação à sua vida cotidiana, enquanto não conseguirem compreendê-la e retomá-la.


III – A experiência tem duração curta e ocorre episodicamente

A experiência espiritual não patológica é um acréscimo às possibilidades vivenciais do indivíduo, não se interpondo às demais experiências cotidianas da consciência. Assim, espera-se que a pessoa saudável passe por uma vivência incomum e logo retome seu estado habitual de consciência e suas atividades cotidianas. Existem casos, entretanto, de médiuns treinados que sustentam experiências espirituais por mais tempo sem comprometimento de sua saúde mental.

IV – Existe uma atitude crítica sobre a realidade objetiva da experiência

A consciência saudável, surpreendida pela experiência espiritual ou religiosa, precisará refletir sobre o sentido dessa experiência para si mesmo e para sua vida. Enquanto o indivíduo não desenvolver uma nova compreensão sobre a experiência que esteja vivendo, ele precisará colocar sob suspeita essa nova experiência, até que ela possa ser compreendida. Enquanto isso, ele poderá não conseguir avaliar adequadamente o que lhe sucedeu, como ocorre, por exemplo, nas experiências místicas, como mostraram Lukoff et al.54.

V – Existe compatibilidade da experiência com algum grupo cultural ou religioso

A compatibilidade da experiência com as crenças e os comportamentos próprios de um grupo cultural de referência sugere o ajustamento social daquele que vive a experiência com as práticas de um grupo, conferindo legitimidade a essa vivência. Entretanto, a EQM13 e a mediunidade podem surpreender indivíduos, seus familiares, bem como os grupos religiosos em que eles estejam inseridos, sem que alguém tenha qualquer compreensão sobre o que tenha ocorrido.


VI – Ausência de comorbidades

Sims apontou que a psicopatologia relacionada a uma experiência espiritual pode ser observada tanto no comportamento do indivíduo quanto na sua experiência subjetiva, manifesta-se em todas as suas áreas de vida e compõe um histórico de vida compatível com o histórico de um transtorno mental, em nada lembrando uma experiência espiritual. Quanto mais evidenciada estiver a patologia, mais probabilidades teremos de estar diante de um transtorno mental.


VII – A experiência é controlada

Cabe a um ego vigilante controlar suas vivências habituais e garantir um bom desempenho pessoal e social. Caberá a ele, da mesma forma, controlar as experiências espirituais e religiosas, de modo a não prejudicar suas vivências habituais. Formas orientais de meditação, por exemplo, tendem a atrair indivíduos com transtorno de personalidade borderline e narcisista, que têm uma frágil integração psicológica, podendo gerar nesses indivíduos falsas experiências de iluminação, repletas de visões aterradoras.


VIII – A experiência gera crescimento pessoal

A experiência espiritual gera significados enriquecedores para a vida pessoal, social e profissional de um indivíduo. Já a experiência patológica, mal estruturada e mal estruturada desde o princípio ampliará o desequilíbrio do indivíduo ao longo do tempo, resultando em deterioração geral da sua qualidade de vida.


IX – A experiência é voltada para os outros

A experiência voltada para os outros guarda um sentido e um objetivo social, próprios de alguém socialmente ajustado. Já a experiência egocentrada tende a ser isolacionista e pode, muito facilmente, levar o indivíduo a enredar-se nos meandros de um pensamento delirante sem que ele próprio possa se dar conta da extensão do seu desvio da normalidade.


Conclusão

Embora os critérios diferenciadores aqui apresentados sejam sugestivos para diferenciar uma experiência espiritual de uma condição de transtorno mental, são necessários estudos controlados que testem esses critérios sugeridos.
Esses futuros estudos deverão tomar alguns cuidados para que possam ter maior validade.
Tart já tinha apontado a inadequação da abordagem científica tradicional para abordar os “Estados Alterados de Consciência”, entendidos como alterações qualitativas no padrão global de funcionamento mental que o indivíduo sente serem radicalmente diferentes do seu modo habitual de funcionamento, recomendando o uso extensivo de observações empíricas que possam ser replicadas por outros investigadores.
Heber e Ross propuseram que os estudos sejam feitos com populações não clínicas, para que seus resultados possam ser mais generalizáveis para a população não diagnosticada.
Reinsel sugeriu que fossem utilizadas amostras maiores e estas fossem recolhidas de ambientes onde as experiências estudadas ocorram com maior frequência.
Almeida e Neto recomendam, entre outras coisas, utilizarem-se diversos critérios de normalidade e patologia, avaliar a experiência de modo multidimensional e priorizar estudos longitudinais que permitam esclarecer as complexas relações causais entre as variáveis associadas às experiências espirituais e aos transtornos mentais.
Levin e Steele também insistem em estudos longitudinais, propõem o uso de conceitos operacionais relativos às experiências e recomendam buscar respostas para as seguintes perguntas: o que, quem, onde, quando, como e por quê.




FONTE: Revista de Psiquiatria Clínica da Universidade de São Paulo - USP.
Menezes Júnior A, Moreira-Almeida A / Rev Psiq Clín. 2009;36(2):75-82

terça-feira, 17 de abril de 2012

Eletroconvulsoterapia para Tratamento da Depressão Grave

 No imaginário popular, eletrochoque é aquela antiga tortura usada contra pacientes psiquiátricos.

Na psiquiatria, "eletrochoque" é o sinônimo politicamente incorreto de eletroconvulsoterapia, "o antidepressivo mais poderoso que existe", segundo Harold Sackheim, professor da Universidade Columbia (EUA).

Sackheim, que é americano e participou do Congresso Brasileiro de Psiquiatria encerrado sábado em Fortaleza, disse que 70% dos pacientes com quadros de depressão grave se recuperaram com eletrochoques. Já a taxa de sucesso com antidepressivos, nesses casos, não ultrapassou 30%.

"Metade dos pacientes que eu tratei já tentou se matar e eles acabaram se recuperando", disse à Folha o professor de psiquiatria.

Segundo o brasileiro Moacyr Rosa, também pesquisador da Columbia, o preconceito contra o método vem de seu mau uso no passado, quando era aplicado sem anestesia e para qualquer coisa. "A eletroconvulsoterapia acompanhou a evolução da medicina e hoje suas aplicações são muito mais seguras."



O que é Eletroconvulsoterapia?

A ECT - eletroconvulsoterapia é um tratamento extremamente eficaz e seguro para doenças psiquiátricas, principalmente a depressão. O objetivo é promover uma estimulação elétrica no cérebro com a finalidade de induzir uma crise convulsiva que dura ao redor de 30 segundos, mas já suficiente para aliviar os sintomas das doenças. O tratamento é feito em sessões, o número de aplicações é definido pelo psiquiatra. Tudo é feito em um ambiente hospitalar, com o paciente anestesiado para que não sinta desconforto ou dor e a liberação é feita no mesmo dia.

Apesar do alto índice de eficácia e da segurança do tratamento, a técnica ainda é incompreendida e confundida com tratamento doloroso, antiquado ou mesmo tortura. Antigamente a ECT era conhecida como “eletrochoque”. Nos anos 50, com a descoberta de remédios com efeitos antipsicóticos, antidepressivos e estabilizadores do humor, a ECT começou a ser vista negativamente. No entanto, nenhuma droga, até o momento, se iguala, em eficácia, à ECT. Quando os profissionais começaram a observar as limitações do efeito das medicações o interesse pela ECT voltou a crescer. Em 1959, foi relatado o uso de anestesia durante o procedimento. A partir dos anos 70 a técnica foi extremamente aprimorada, com o desenvolvimento de aparelhos mais sofisticados, que permitem um controle preciso da carga fornecida, uso de anestesia, oxigenação, relaxamento muscular e monitoração detalhada das funções vitais. 


Atualmente, estima-se que 50 mil pessoas recebam ECT por ano nos Estados Unidos, no Brasil ainda não há dados precisos, mas a técnica é amplamente utilizada nos melhores e mais conceituados hospitais de todo o país. Infelizmente o preconceito e a falta de informação ainda existem, mas a cada dia mais profissionais e pacientes reconhecem que a ECT é uma intervenção eficaz, segura e, muitas vezes, capaz de salvar a vida em certos transtornos nos quais outras intervenções tiveram pouco ou nenhum efeito.

Editoria de Arte/Folhapress


 Como surgiu


O tratamento surgiu na década de 30, quando os neuropsiquiatras italianos, Ugo Cerletti e Lucio Bini, iniciaram pesquisas induzindo convulsões com eletricidade. Em 1938, Cerletti realizou a primeira terapia convulsiva induzida eletricamente com finalidade terapêutica. Descobriu-se, então, que o tratamento reduz o risco de suicídio, quase a ponto de desaparecimento, rapidamente. Em poucos anos, a ECT tornou-se um dos principais métodos de tratamento da esquizofrenia e transtornos do humor.


Indicações

Os quadros depressivos são os que melhor respondem a este tratamento. Todos os subtipos podem se beneficiar do tratamento: refratária, unipolar, bipolar, catatônica, associada a transtorno de personalidade ou a uma outra doença orgânica.


A ECT tem indicação como primeiro tratamento nos quadros nos quais:

1. Há um risco de suicídio iminente;

2. Uma desnutrição que põe em risco a vida do paciente;

3. A presença de sintomas catatônicos;

4. Presença de sintomas psicóticos graves;

5. Em situações nas quais outros tratamentos são mais arriscados devido aos seus efeitos colaterais (por exemplo: pacientes idosos, durante a gestação e amamentação).

Outros quadros também podem ter indicação: mania e seus subtipos, esquizofrenia e outras psicoses funcionais resistentes ao uso de antipsicóticos, epilepsia refratária e transtornos mentais em epilépticos, síndrome neuroléptica maligna e doença de Parkinson (há melhora dos sintomas extrapiramidais e depressivos).


Amnésia

Apesar de exaltarem a eficácia do método, os especialistas reconhecem que a terapia por convulsão elétrica causa efeitos colaterais que variam da náusea até a perda de parte da memória.

Segundo Del Porto, é comum o procedimento causar perda transitória da capacidade de memorização. "Depois de duas ou três semanas, tudo volta ao normal. Já os casos de perda das recordações costumam ser raros".

Segundo Rosa, esses desconfortos são o foco atual das pesquisas. "A ideia hoje é diminuir a incidência desses efeitos colaterais."


FONTE:  Instituto de Pesquisas Avançadas em Neuroestimulação www.ipan.med.br






segunda-feira, 16 de abril de 2012

Ômega 3 e seus benefícios no Tratamento da Depressão

 Gorduras certas, e na medida certa são fundamentais à prevenção de doenças, o desequilíbrio entre ácidos graxos essenciais (essenciais porque são indispensáveis às funções do organismo, não sendo sintetizado, devendo provir da dieta), ômega 3 e ômega, com baixo consumo de ômega 3 e o aumento do consumo de gorduras saturadas e trans está esclarecendo desequilíbrios nas funções cerebrais, desde um simples esquecimento, falhas de memória à depressão e doenças neurodegenerativas.

Publicado na Nature Neuroscience, um estudo mostrou que a redução dos níveis de ômega 3 na dieta tiveram efeitos negativos sobre as funções sinápticas e comportamentos emocionais. Os pesquisadores estudaram ratos alimentados com uma dieta pobre em ácidos graxos ômega 3 e descobriram que a deficiência crônica durante o desenvolvimento intra-uterino, pode mais tarde influenciar a atividade sináptica envolvida no comportamento emocional (como sintomas de ansiedade e depressão) na vida adulta.

Já, pesquisadores da Universidade de Navarra e Las Palmas, após estudar 12.059 voluntários durante 6 anos mostraram uma significativa relação entre gorduras trans e depressão. Embora no início do estudo, nenhum dos voluntários sofriam de depressão, no final do estudo haviam cerca de 657 casos. Qual a relação? De todos esses casos, os participantes com um elevado consumo de gorduras trans apresentaram um aumento de até 48% no risco de depressão quando comparados aos participantes que não consumiram essas gorduras.

No entanto, as gorduras poliinsaturadas, de peixes, óleos vegetais e monoinsaturadas, presentes no azeite estiveram associadas com um risco menor de depressão.

As recomendações para o consumo de gorduras é que não ultrapasse 30% do valor calórico total diário, detalhadamente, o consumo de gordura saturada deve ficar inferior a 7%, a poliinsaturada até 10%, e gordura monoinsaturada, encontrada especialmente no azeite de oliva até 20% e menor do que 1% de gordura trans do valor calórico total.

O azeite de oliva, mostrou-se protetor da função cerebral, é uma excelente e indispensável fonte de gordura, consumido de forma regular pode melhorar o perfil lipídico e inibir a oxidação de LDL. estimula a produção de óxido nítrico, que é um importante agente regulador da pressão arterial, fatores que protegem contra as doenças cardiovasculares.

A dieta de países industrializados tem aumentado de forma quantitativa as calorias ingeridas por meio de gorduras, cerca de 35 a 40%, com altos níveis de ácido linoléico (ômega 6) e baixos de ácido alfa linoléico (ômega 3). Segundo as referências, a quantidade de ômega 6 consumida durante os últimos quarenta anos disparou para 250%, enquanto que de ômega 3 caiu em 40%.

Enquanto recomenda-se a manutenção da proporção 5:1 entre ômega 6 e 3 na dieta, proporção essa que pode influenciar na formação de neurotransmissores e prostaglandinas, fatores vitais para manter a função cerebral em equilíbrio, o consumo atual pode estar em 15 de ômega 6 para 1 de ômega 3. Nos EUA, essa proporção pode chegar até 40 de ômega 6 para 1 de ômega 3.

Gorduras trans e saturadas ainda provocam alterações na composição lipídica, circulação sanguínea e trabalho cardíaco, seja pelo aumento de LDL colesterol e do colesterol total.

Almudena Sánchez-Villegas, Lisa Verberne, Jokin De Irala, Miguel Ruíz-Canela, Estefanía Toledo, Lluis Serra-Majem, Miguel Angel Martínez-González. Dietary Fat Intake and the Risk of Depression: The SUN Project. PLoS ONE, 2011.

Lafourcade, Mathieu et al. Nutritional omega-3 deficiency abolishes endocannabinoid-mediated neuronal functions. Nature Neuroscience, 2011.

Massiera et al. A Western-like fat diet is sufficient to induce a gradual enhancement in fat mass over generations. The Journal of Lipid Research, 2010.

domingo, 15 de abril de 2012

Ser Borderline é possuir algum talento...


Algumas pessoas acreditam que "nós" borderlines, possuímos um dom, oriundo da nossa sensibilidade exacerbada; extra- sensorial. Acredito que elas tenham razão, pois ser emocionalmente sensível e viver num mundo repleto de violências, tristezas, tragédias, egocentrismo, consumismo, desrespeito, fome e medo tem que ser muito artista! No entanto, demonstramos nossos sentimentos e extravazamos nossas emoções por meio da arte. Procuramos canalizar nossa energia através da escrita, música, dança, pintura por aquilo que estamos sentindo como se fosse uma descarga elétrica, a fim de nos libertar, despejando feito um raio de emoções e idéias, aquilo que de fato nos perturba, magoa, fere e corroe a alma.
É devido a nossa dor e ao nosso sentimento de vazio mais profundo que nos tornamos artistas.
Somos compreendidos quando artistas, porém não como sendo borderlines...

Kalili

O que é ser borderline?




LEIA
CLARISSE LINSPECTOR E DESCUBRA...




 




  



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KURT COBAIN



E





AMY WINEHOUSE
E SINTA...




                                               




ASSISTA
MARILYN MONROE
E VEJA...
                                                   

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